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domingo, 17 de agosto de 2014

Perdoar no íntimo

Por Myrian Talitha Lins

Na parábola do "Credor Incompassivo" (Mateus 18.23-35), Jesus narra a história de um homem que devia ao seu senhor uma quantia vultosa. Não tendo ele com o que pagar, o senhor, generosamente, perdoou-lhe tudo. Entretanto esse servo não foi capaz de perdoar a um colega que lhe devia uma quantia insignificante, e lançou-o na prisão. Ao tomar conhecimento do fato, o senhor voltou atrás na decisão de perdoar-lhe. Ordenou que ele também fosse preso até que saldasse toda a dívida. E Jesus concluiu o ensino dando a seguinte  relevação: "Assim também meu Pai celeste vos fará, se do íntimo não perdoardes cada um de seu irmão (versículo 35).

Alguns anos atrás, certa pessoa teve para comigo um gesto de rejeição que me magoou profundamente. Achava-me numa situação delicada e sentia-me bastante insegura. Essa pessoa podia ter-me valido naquele momento, dando-me "uma força", atendendo a um pedido meu. Contudo, apesar de haver dito antes que o faria, acabou se recusando, Roguei-lhe insistentemente que reconsiderasse a decisão, mas permaneceu irredutível. Fiquei muito magoada e, durante muito tempo, carreguei aquela tristeza comigo.

O tempo foi passando e o rancor permanecia. Meu relacionamento com ela, conquanto não fosse propriamente conflituoso, tampouco era caracterizado pelo amor cristão. Eu a tratava com certa frieza, procurando manter distância, provavelmente temendo mais rejeições.

Permita-me aqui abrir um parêntese. Na verdade essa nossa mania de guardar mágoa pelas ofensas sofridas é uma insensatez, pois acarreta muito sofrimento. O rancor nos torna ressentidos, entristecidos. Podemos inclusive contrair enfermidades, como úlcera gástrica, artrite, depressão, pressão alta, etc. Naquela época, recordo-me, sofri vários distúrbios do aparelho digestivo. Vivia sentindo dores na região abdominal. E um detalhe curioso é que aquele que nos magoa, geralmente não sofre nada. Nosso ressentimento parece não afetá-lo. Além disso, o fato de termos rancor não muda o acontecido, não muda a ofensa, não cura a dor. Portanto, alimentar mágoa contra alguém não só é algo sumamente inútil, como pode trazer-nos grandes prejuízos.

Depois de certo tempo, Deus começou a falar-me com base em 1 João 4.20: "...aquele que não ama  seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê." De acordo com esse texto, eu não amava a Deus (embora julgasse amá-lo), já que não amava aquela que me magoara. Entretanto eu acreditava ter todo o direito de guardar mágoa, e cerrei os ouvidos à voz do Espírito. Contudo ele é fiel e continuou batendo à porta do meu coração.

Analisando bem os fatos, porém, compreendi que as ofensas que tanto sofrimento causam, na verdade, são de valor íntimo. Comparada com realidades como a morte e a perdição eterna, aquela ofensa que eu sofrera não passara de uma "ninharia".

Afinal, um dia, parei de resistir à voz de Deus. Tomei a decisão de amar o meu próximo, como Jesus ordenara. Para isso, para amar aquela que me magoara, teria de perdoar-lhe, então orei:

- Está bem, Senhor. Eu me disponho a amar essa pessoa. Ela não merece, mas vou amá-la em obediência a ti, só por isso!

Não foi fácil. Nunca é fácil perdoar. O problema é que deixara aquele sentimento enraizar-se profundamente em minha alma. Agora estava sendo extremamente difícil removê-lo. Exigia um processo longo e penoso.

O Senhor insistia comigo, dizendo-me que precisava amar e perdoar. Eu desejava obedecer, mas meu coração parecia endurecido.

Por fim, após alguns meses de relutância, num esforço de vontade, assumi conscientemente a decisão de perdoar e disse:

- Senhor, eu perdoo! Perdoo a essa pessoa aquele ato e rejeição que tanto me magoou!

Senti grande alívio. Reconheci tomara  decisão acertada. Contudo, apesar de ter sido sincera ao dizer que perdoava, o problema não ficou resolvido aí. É que, ver por outra, recordava-me daquele fato e, com a lembrança, retornavam a mágoa, a dor e o desconforto emocional. Assumira uma disposição consciente de perdoar, mas a ofensa sofrida ainda me doía interiormente.

E Deus continuou a falar-me ao coração. Precisava amar, o que implicava em perdoar. Como eu decidira amar, entendi que deveria manter  o perdão. Então repeti  decisão de perdoar.

- Senhor - disse- eu quero amar e, portanto, quero perdoar. Sinto novamente essa mágoa, mas decido perdoar. Perdoo outra vez!

Isso ocorreu várias vezes, sempre com o mesmo processo. Eu me lembrava da ofensa, sentia a mágoa, mas, em seguida para obedecer ao Senhor, exercitava minha vontade e perdoava de novo. Lembro-me de que, certo dia, achava-me no carro sozinha, dirigindo-me para o trabalho. Veio-me novamente  tentação de sentir raiva daquela pessoa, mas resisti e de novo decidi perdoar. Então falei em voz alta, com firmeza e decisão:

- Senhor, eu perdoo Fulana. Perdoo mesmo. Quero perdoar sim!

Como nas ocasiões anteriores, senti uma alegria intensa, difícil de ser explicada em palavras. Parecia-me que meu espírito se tornara mais leve.

Não sei quanto tempo isso durou nem quantas vezes tive que repetir o perdão. Sei, porém, que  cada vez que o renovava, , fazia-o com maior convicção e firmeza. Percebia também que, a cada vez, as palavras vinham mais e mais do fundo do meu ser.

Afinal, como persistisse na decisão de perdoar e amar, um dia fui capaz de chegar no fundo do coração, no íntimo, e falei:

- Senhor, eu perdoo! Perdoo! Perdoo! Perdoo!

Disse-o de forma incisiva, sem a menor dúvida no coração. Dias depois, ao pensar no fato, compreendi que era disse que Jesus falava em Mateus 18.35. O Pai quer que perdoemos no íntimo, isto é, de todo o coração, mesmo que precisemos perdoar várias vezes a mesma ofensa.

O que acontecera é que, apesar de haver perdoado com sinceridade, eu o fizera superficialmente. Assim que voltava  lembrar a ofensa sofrida, sentia de novo a dor, a mágoa e o rancor. Fora necessário, então, aprofundar o perdão. Era preciso perdoar no íntimo de meu ser, extirpar do coração a raiz de amargura.

Algum tempo depois de haver perdoado aquela pessoa no íntimo, percebi que a lembrança da rejeição que sofrera não me "doía" mais. Era como recordar qualquer outro ato dela. Ainda hoje, se a relembro, é como se nada houvesse ocorrido. Não sinto mais a mágoa. Tudo passou.

Recentemente voltei a ter contato com essa pessoa e a sensação que tive foi de liberdade e gozo, A atmosfera entre nós se desanuviara; achava-se límpida e clara. Não havia mais peso, nem sombra, nem escuridão. Glória a Deus!

Estou certa de que nem todo mundo precisa passar por um longo processo para perdoar um ofensor. Alguns talvez consigam dar um perdão profundo imediatamente. Contudo quem é como eu possivelmente terá de tomar a decisão várias vezes até chegar  perdoar no íntimo. E é imprescindível que perdoemos assim, sem o que a questão não ficará resolvida.

Meu irmão, se você perdoou um ofensor (e quem nunca sofreu uma ofensa?), mas sente que entre você e ele continua a haver alguma mágoa, é possível que não lhe tenha perdoado do íntimo, como Jesus ensinou. Então, perdoe de novo, do fundo do coração.

É vital que perdoemos e que o façamos do íntimo. Isso é necessário para que fiquemos livres do rancor, da dor, da mágoa. É necessário para que nos livremos de enfermidades e das outras dolorosas consequências da amargura. E o mais importante: é necessário para que o Pai nos perdoe!

E.A.G.
Fonte: Mensagem da Cruz, páginas 12-14, nº 109, Abril-Junho de 1996, Minas Gerais (Editora Betânia).

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