Pesquise sua procura

Arquivo | 14 anos de postagens

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Bíblia Sagrada, o Livro da Paz

O ser humano desenvolveu, ao longo da história, diversos conceitos de paz. Um dos conceitos mais comuns de paz é o de ausência de guerras. A ausência de combates pode ocorrer por vários motivos. Um chargista, em 1967, depois da Guerra dos Seis Dias entre alguns países árabes e Israel, fez um desenho com o título “Pás no deserto”. A pronúncia dessa frase, ou seja, seu som era igual a “Paz no deserto”. O desenho, no entanto, mostrava vários túmulos de areia e as pás sobre os túmulos. A paz foi feita enterrando com pás todos os seres humanos mortos na guerra. 


A Bíblia é chamada de “O Livro da Paz”. Mas paz, na Bíblia, não significa necessariamente ausência de guerras ou conflitos. Alguém pode ter paz mesmo estando em meio a um conflito. A paz de que a Bíblia fala é muito mais ampla e complexa do que a simples ausência de guerras. Vamos dar alguns exemplos.

O significado de paz. O Salmo 29, em seu último versículo (11), na tradução Nova Almeida Atualizada, diz assim: “O Senhor dá força ao seu povo, o Senhor abençoa o seu povo com paz.” As traduções Almeida Revista e Corrigida e Revista e Atualizada têm esse mesmo texto. A Nova Tradução na Linguagem de Hoje, no entanto, diz: “O Senhor dá força ao seu povo e o abençoa, dando-lhe tudo o que é bom.” Esse texto explicita o que nas outras traduções é traduzido por paz. A palavra hebraica que está no original é shalom. Em hebraico, shalom pode ser traduzido simplesmente por paz. Mas o conceito inclui as ideias de tranquilidade, segurança, saúde, prosperidade, bem-estar material e espiritual. Aí entendemos a razão pela qual a Nova Tradução na Linguagem de Hoje substitui a palavra paz pela expressão “tudo o que é bom”. Quando Deus nos dá a paz, ele nos dá tudo o que é bom. Aí temos um primeiro conceito importante para o que significa denominar a Bíblia como o Livro da Paz. Ela é um livro que nos traz tudo o que é bom. 

Shalom também é a palavra tradicionalmente usada como saudação entre o povo de Israel. Muitos cristãos, quando se saúdam, usam a mesma expressão: “A paz!”, ou “A paz do Senhor!”. Essa saudação, evidentemente, não é uma declaração de ausência de conflitos. Ela evoca o sentido ampliado que mencionamos acima. O que as pessoas desejam umas às outras é tudo de bom. A paz como dom de Deus.

A paz como dom de Deus. A paz tem pelo menos dois aspectos. O primeiro aspecto refere-se à paz com Deus. Nesse sentido, ela é um dom. Deus nos dá a sua paz. Só assim teremos a paz com Deus. Quando Jesus Cristo veio ao mundo, ele veio trazer a paz - uma paz que não se caracteriza pela ausência de guerras, mas por uma relação especial com Deus. Aliás, a guerra existiu na Bíblia e continuará existindo no mundo, testemunhando a rebelião do ser humano em relação a Deus. A rebelião contra Deus provocou a injustiça entre os seres humanos. Não há paz onde não há justiça. E a justiça só se restabelece quando as pessoas se reconciliam com Deus. A reconciliação do ser humano com Deus não é obra humana. Deus mesmo a providencia e oferece para as pessoas como um presente, um dom. 

No Evangelho segundo João, capítulo 14, Jesus faz um discurso de despedida aos seus discípulos. Ele estava preparando os discípulos para os acontecimentos que estavam por vir. O auge desses acontecimentos aconteceria na Semana Santa, com a prisão, crucificação e ressurreição de Jesus. Em meio a essa tensão, Jesus menciona a paz que ele lhes daria. A paz é apresentada como um dom.

"Deixo com vocês a paz. É a minha paz que eu lhes dou; não lhes dou a paz como o mundo a dá. Não fiquem aflitos, nem tenham medo.” (João 14.27, NTLH). 

A paz que Jesus oferece como um presente é diferente da paz que o mundo oferece. A paz que o mundo oferece é a paz como a que vem no final de uma guerra. Um lado elimina o outro. Com isso, não há mais conflito. A paz de Deus é diferente. Ela é mais complexa e mais ampla. É por isso que sobre a paz que Deus dá é dito: “E a paz de Deus, que excede todo entendimento, guardará o coração e a mente de vocês em Cristo Jesus” (Filipenses 4.7). A paz que Deus nos dá é tudo de bom.

Quem tem a paz de Deus se torna um pacificador. Agora vamos falar sobre um segundo aspecto do conceito de paz na Bíblia. A pessoa temente a Deus, uma vez que encontra paz com Deus, começa a trabalhar pela paz. São bem-aventurados os pacificadores (Mateus 5.9). A paz da cidade deve ser procurada mesmo durante o exílio (Jeremias 29.7). Os cristãos são mensageiros da paz. O profeta Isaías registra: “Quão formosos são sobre os montes os pés do que anuncia boas-novas, que faz ouvir a paz, que anuncia coisas boas, que faz ouvir a salvação, que diz a Sião: ‘O seu Deus reina!’”

Com tantas indicações, haveria alguma dúvida de que a Bíblia é o Livro da Paz? Aliás, a paz que a Bíblia ensina não é alcançada com acordos, nos quais cada uma das partes precisa ceder um pouco. Não é uma paz onde o mais forte impõe as suas condições sobre o mais fraco. É uma paz com justiça. Sem justiça não há paz. A paz que Deus dá como um presente transforma as pessoas em agentes da paz, em pacificadores. 

A Palavra é como uma semente. O cristão que desempenha a atividade de evangelização é um plantador de sementes. Onde a semente alcança o coração humano e germina, ali seu fruto continua sendo produzido. Quando as pessoas absorvem a Palavra de Deus, encontram paz em diversas dimensões. Elas passam a ter paz consigo mesmas. Ter paz consigo mesmo é entender a si mesmo e aprender a viver em paz. Alcançar esta qualidade de vida  é um presente muito especial que Jesus nos dá.

Numa parábola, a Palavra de Deus é comparada a uma semente (Mateus 13.1-30). A semente tem o potencial de produzir o fruto que está, de certa forma, oculto dentro dela. Quando ela cai em solo apropriado, ela produz. A Bíblia Sagrada é uma semente que está entre a humanidade há milênios. E, quando ela é depositada em solo adequado, no coração humano, ela continua a produzir seus frutos.

Quando a semente da Palavra de Deus germina no coração, a pessoa passa a viver em paz com a sua família. Aprende a amar, perdoar, ser solidária e viver em comunidade. A família não é mais um lugar de disputas e brigas. O lar passa a ser um refúgio de paz. A paz que a semente da Palavra de Deus produz também mostra seu valor na vida em sociedade. Se as pessoas encontram paz para si e suas famílias, a vida em sociedade muda de perspectiva. Mas não podemos esquecer que todas essas dimensões da paz são possíveis porque a Bíblia, o Livro da Paz, nos traz o caminho da paz com Deus. Se temos paz com Deus, tudo o mais é consequência desse fruto da semente da Palavra de Deus.

Onde os pacificadores atuam? Os cristãos, como embaixadores da paz, são aqueles que estão em ação nas situações em que a dor e a falta de paz se manifestam. Eles ajudam os famintos, os doentes, os sofredores, sem fazer acepção de pessoas. Ao longo da história, os cristãos já viveram sob os mais diferentes regimes políticos. Mesmo com regimes de governo diversos, os cristãos eram embaixadores da paz. Muitas vezes, os cristãos foram mal-entendidos neste seu afã de lutar pela paz. A perseguição sempre acompanhou a fé. A paz que excede o entendimento humano tem o poder de questionar comportamentos e atitudes, mostrando aspectos que ocultam luta por poder e dominação.

Jesus, em sua vida, mostrou que era um amante da paz. Ele não procurou bens materiais para si. Ele sempre estava pronto para abençoar. As crianças se aproximavam de Jesus. Os famintos encontravam em Jesus alguém que tinha compaixão da sua situação. Jesus curava os doentes. Mas tudo isso não evitou que ele fosse perseguido, preso, condenado e morto. Até na cruz, ele orou pelas pessoas que o condenaram à morte. Ele era, de fato, o Príncipe da Paz (Isaías 9.6).

Autoria: Erni Walter Seibert. Artigo publicado na revista A Bíblia no Brasil. Ano 74, número 267,, página 9. Sociedade Bíblica no Brasil.

Nenhum comentário: