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quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

A Carta aos Hebreus e a Excelência de Cristo

Por Eliseu Antonio Gomes

INTRODUÇÃO

A Carta aos Hebreus é a única no Novo Testamento cujo autor e o receptor não são revelados. E uma vez que não menciona a destruição de Jerusalém, que teve lugar em 70 d.C., provavelmente foi escrita entre 64 e 68 d.C.

I - AUTORIA, DESTINATÁRIO E PROPÓSITO

1. Autoria

A Carta aos Hebreus não revela o nome de seu autor. Ainda hoje é objeto de debates polêmicos entre os historiadores e teólogos que discutem o seu conteúdo e principalmente quem a escreveu. A autoria da epístola não é tão clara como a de outros livros do Novo Testamento, e isto tem sido motivo de controvérsia desde os primeiros tempos. As igrejas do oriente e do ocidente debateram sobre quem era o autor do livro, há vários motivos para se pensar em nomes como Paulo e Barnabé, Lucas, Apolo ou Clemente.

► Sumário: A Supremacia de Cristo - Fé, Esperança e ânimo na Carta aos Hebreus

Com seu formato inigualável e não convencional, é considerada um tratado teológico, por conta de seu prólogo de abertura (Hebreus 1.1-4). Começa como um compêndio, prossegue como um sermão e termina como uma carta. Embora não traga em seu início a habitual saudação de Paulo, os cristãos desde o século IV, aproximadamente, até o final dos anos 1800, acreditaram ser o apóstolo o seu autor.

2. Destinatários

A comunidade a quem o escritor endereça o texto, era composta por judeus convertidos ao cristianismo que estavam voltando às antigas práticas do judaísmo. O retorno ao judaísmo era necessariamente um retorno à Lei. Manifestaram a intenção de retornar por causa da perseguição deflagrada pelo Império Romano. Pressionados, os crentes judeus se dividiram entre a sua nova fé e os costumes antigos. Era muito tentador voltar aos rituais judaicos, acomodando-se às liturgias da antiga religião, pois não mais viveriam sob pressão social. Mas, o  escritor contra-argumenta este raciocínio, alega que Jesus é melhor do que qualquer forma de fé antiga; afirma que o retrocesso na fé se configura ato de apostasia.

Ainda nos dias atuais, entre os cristãos de confissão protestante, há quem creia que uma "uma vez salvo, salvo para sempre", crença esta alheia ao texto bíblico, afirmação criada no século V por Agostinho do Hipona (354-430 d.C.), portanto, é um conceito mais católico do que protestante. O escritor da Carta aos Hebreus está entre os que ressaltam a possibilidade concreta da apostasia, mostra a necessidade da perseverança e vigilância na jornada cristã. Para o autor de Hebreus, o perigo de cair da fé é uma realidade e não apenas uma hipótese. (Hebreus 3.12; 6.4-6; 10.26-29). Nossa segurança está condicionada a nossa permanência em Cristo. A carta é uma pedra de tropeço para aqueles que pregam a doutrina da segurança incondicional ou eterna do crente.

3. Propósito

O argumento da Carta aos Hebreus é o de que Cristo não apenas é superior à antiga aliança, mas o cumprimento dela. A Carta aos Hebreus tenciona fazer uma ponte entre o passado e o presente vivido pela igreja daqueles dias. Com essa finalidade, frente às ameaças de um judaísmo cada vez mais presente na comunidade cristã, o remetente desenvolve algumas temáticas que dão corpo à carta, fazendo com que sua mensagem soe como um retumbante alarme.

Confira as abordagens doutrinárias que revelam claramente o objetivo de ter sido escrita:
Encorajar. No século I, os seguidores de Cristo se viam constantemente sujeitos à perseguição de seus concidadãos. Os judeus crentes em Cristo, com sua fé recém descoberta, perguntaram se o cristianismo valia a dor da perseguição;
Demonstrar que  as disposições divinas para a redenção vistas na Antiga Aliança cumpriram-se e tornaram-se obsoletas pela encarnação de Cristo e pelo estabelecimento do Novo Concerto, mediante a sua morte vicária. 
Evitar que os crentes judeus voltassem atrás, devido a estranha mistura entre judaísmo e cristianismo (Atos 21.23, 24);
Alimentar o ânimo, a esperança e a fé em tempo do perigo da apostasia.
No capítulo 11 da Carta aos Hebreus, nos deparamos com uma "galeria de excelência  na fé" do Antigo Testamento. Encontramos o autor elogiando homens e mulheres que andaram com Deus e perseveraram na sua fé. São modelos a ser imitados. São trilhas a serem seguidas. Se eles, que viveram apenas na sombra das promessas ousaram tanto, como fazer diferente nós que vivemos na realidade e concretização das promessas?

A carta mostra que o passado do povo de Deus está ao nosso lado. Com isso, ensina que independentemente de suas tentações, os crentes são chamados e equipados em Cristo para que se transformem em pessoas mais parecidas com Ele a cada dia. 

II - CRISTO - A PALAVRA SUPERIOR A DOS PROFETAS

1. A revelação profética e a Antiga Aliança

Os profetas eram os mensageiros de Deus para o povo de Israel. A Instituição Profética do Antigo Testamento é por demais importante para ser desprezada A trombeta profética servia de alerta quando a vida moral, espiritual e a social não ia bem. Para um judeu, a pior desgraça que poderia existir era o silêncio profético.

E o autor de Hebreus tinha consciência dessa situação, sabia que os profetas eram arautos de Deus,. Todavia, uma voz superior a deles fora levantada - a voz do Filho de Deus! Tinha plena consciência da importância que Moisés teve para a história do povo hebreu e por isso contrasta o papel do grande legislador comentando sobre a superioridade de Cristo. Mostra que Moisés, de fato, foi um grande líder, um mordomo sobre a casa de Deus, enquanto Jesus surge na história da humanidade como o construtor e edificador dessa casa.

Para o autor, a lei mosaica jamais aperfeiçoou nada; servia apenas para conduzir a Cristo. Assim, quem está em Cristo vive os princípios da lei, porque Cristo é o cumprimento da lei.

2. A relevação profética e a Nova Aliança

Para o autor, Cristo é simplesmente o mais "excelente"caminho (capítulo 1 e versículo 4). Está acima de tudo e merece a adoração dos crentes. É o cumprimento perfeito do antigo concerto, e aquele que estabeleceu o novo pacto. Simplesmente não há como comparar o Antigo Testamento com o Novo Testamento. O cristianismo tem um concerto melhor, um santuário melhor e um sacrifício melhor pelos pecados (Hebreus 8.1-13; 9.1-10; 9.11-10.18).

Jesus é Sumo Sacerdote "segundo a ordem de Melquisedeque". Essa expressão, contida na carta é uma expressão-chave.

Jesus, como um autêntico judeu pertencente a tribo de Judá, jamais poderia oficiar como um sacerdote. Somente os descendentes de Levi e descendentes de Arão poderiam oficiar como sacerdotes. E a partir de uma exegese segura do Salmo 110, o autor mostra que Cristo é aquele que cumpre a profecia desse salmo porque Ele é rei e sacerdote ao mesmo tempo como o fora Melquisedeque, sacerdote do Deus Altíssimo e rei. Então, o escritor contrapõe o sacerdócio de Cristo com o sistema levítico. Dessa maneira, mostra a superioridade de Cristo sobre o sacerdócio da antiga aliança.

O sacerdócio da antiga aliança era da ordem aarônica, o sacerdócio de Cristo era segundo a ordem de Melquisedeque. O sacerdócio levítico era temporário, o de Cristo eterno. O sacerdócio levítico cobria o pecado, o sacerdócio de Cristo remove o pecado. O sacerdócio levítico oferecia animais como vítimas de sacrifícios, enquanto Cristo, nesse novo sistema sacerdotal, ofereceu-se a si mesmo.

Como nosso Sumo Sacerdote compassivo, Jesus Cristo proporciona um meio totalmente novo de relacionamento com Deus e de segui-lo.

3. Cristo: a revelação final

Deus é imortal, soberano, invisível, onipotente e nada é impossível para Ele. Além de seu poder para criar e estabelecer todas as coisas, tem domínio e poder absoluto. Sua capacidade, poder e liberdade para fazer as coisas e criar, mesmo do nada, são mostras de sua onipotência (Isaías 40.12-15; Hebreus 1.1-3). E, portanto tais atributos, revelou-se ao mundo por meio de Jesus Cristo.

No capítulo 1 e versículos 1 e 2, o autor de Hebreus nos coloca deliberadamente nos "últimos dias". O texto bíblico trata da revelação que Deus faz de si mesmo. No passado, Deus falou aos pais através dos profetas, mas "nos últimos dias", que é a era messiânica, Ele revela-se em Cristo. Jesus inaugurou os "últimos dias", que se estendem desde a sua primeira vinda até a segunda vinda. Este período de tempo também é a era do Espírito, em que Ele trabalha e ministra abundantemente.

III- CRISTO - SUPERIOR AOS ANJOS

1. Cristo: superior em natureza e essência

O escritor da Carta aos Hebreus não apresenta apenas a inferioridade do ministério dos profetas, de Moisés, e de todos os sumos sacerdotes, também faz um comparativo com os anjos (1.4 a 2.18; 3.1 a 4.13; 4.14 a 7.28).

"Pois a qual dos anjos Deus em algum momento disse: 'Você é meu Filho, hoje eu gerei você'? E, outra vez: 'Eu lhe serei Pai, e ele me será Filho'?"- Hebreus 1.5.

Apesar de os anjos serem chamados de "filhos de Deus" (Jó 1.6; 2.1), contudo, o Senhor jamais os chama de "meus filhos". Essa expressão só é dirigida a Cristo conforme demonstra o Salmo 2. Aqui, não está presente a ideia de inferioridade do Filho em relação ao pai pelo fato de aquEle ter sido "gerado". Os anjos são servos de Deus, apenas Jesus é Filho e Senhor.

"Ora, a qual dos anjos Deus em algum momento disse: 'Sente-se à minha direita, até que eu ponha os seus inimigos por estrado dos seus pés' ?" - Hebreus 1.13. Neste texto, a figura é de um monarca sendo honrado diante de seus súditos. O assento da direita revela posição de honra. Por outro lado, no Oriente, era costume dos vencedores colocar o pé no pescoço dos vencidos (Josué 10.24). Nenhum dos anjos ocupou uma posição de honra semelhante àquela ocupada por Jesus. A expressão assenta-te, que traduzida do grego é "kathou", está no presente contínuo e descreve o estado permanente da grandeza e supremacia de Jesus para todo o sempre. Os anjos não têm trono, o Filho de Deus possui seu trono para todo o sempre!

Dentro da cultura judaica os anjos eram importantes. Por este motivo o escritor da Carta aos Hebreus contrasta o ministério dos anjos com o de Cristo. Ele mostra, com uma sólida argumentação, que de fato os anjos são importantes, mas inferiores ao Filho do Altíssimo, porque os anjos são criaturas e o Filho é o Criador, os anjos não são filhos de Deus como o é Jesus.

As Escrituras apresentam os anjos como sendo ministros da salvação; porém, descrevem Jesus como sendo autor da salvação. Isto mostra Cristo acima de qualquer posição angelical, pois "em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos" (Atos 4.12). E no contexto do significado da linha deste pensamento, Paulo diz assim: "Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos (...) nem qualquer outra criatura poderá nos separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor" (Romanos 8.38-39). Ora, isto apresenta Cristo como Senhor dos próprios anjos (Hebreus 1.4).

No que tange à adoração, os anjos são inferiores a Cristo, eles são adoradores, enquanto Cristo é adorado. Isto é desprendido nas próprias palavras do Cristo: "...e todos os anjos o adorem" (Hebreus 1.6). Este direito inerente o coloca acima dos seres angelicais.

2. Cristo: superior em majestade e deidade

Na cultura hebraica, as ideias por trás das palavras "Pai" e Filho" não trazem o sentido de origem do ser e de superioridade, nem tampouco de subordinação e dependência. A sensibilidade israelita sublinha a fraseologia das Escrituras, e, quando elas descrevem Cristo como "Filho de Deus", confirmam sua divindade verdadeira e apropriada.

Da mesma forma os termos "gerado" e "criado" não podem ser vistos como sinônimos. Indicam uma relação peculiar que não pode ser afirmada a respeito de criatura alguma, nem tampouco compartilhada. Da mesma forma que qualquer filho humano assemelha-se ao pai em sua natureza essencial, isto é, possui humanidade, assim também Cristo, o Filho de Deus, é comparável ao Pai em sua natureza essencial, ou seja, possui Divindade.

O que Deus gera é Deus; assim como o que o homem gera é homem. O britânico C.S. Lewis (1898-1963), consagrado escritor de As Crônicas de Narnia, expressou-se assim sobre este assunto: "Gerar é tornar-se pai. Um homem gera bebês humanos, o urso gera filhotes ursos, e um pássaro gera ovos que se transformam em passarinhos. Criar é fazer. Quando você cria faz algo de uma espécie diferente da sua. O pássaro faz o ninho, o castor constrói um dique, o homem faz o telégrafo - ou talvez faça alguma coisa mais parecida consigo mesmo, como talvez uma estátua".

Jesus Cristo, por ser o único Filho de Deus, tornou-se o herdeiro de tudo. Todavia, Ele não é apenas o herdeiro de tudo, mas também o agente da criação. Através dEle, os mundos foram criados. A palavra "mundo" traduz o termo grego "aionas", com o significado de "eras". O sentido é que Deus, em Cristo, criou o mundo com tudo o que nele existe, tanto o mundo espiritual como o material.

CONCLUSÃO

Os destinatários da Epístola aos Hebreus tinham os profetas e os anjos em alta consideração e, através do conteúdo da carta, aprenderam que Jesus é maior do que qualquer outra força. Cristo revela tudo o que precisamos saber a respeito de Deus. Seu poder é incomparável e Ele está, majestosamente, em posição superior a qualquer outro ser (Hebreus 1.1 - 10.18).

A carta dispõe de um rico teor exortativo, que permeia-a do início ao fim, sendo que em seu desenlace ganha ênfase maior. Os crentes são desafiados a imitar o exemplo dos cristãos antigos, que mesmo diante das provas, alguns até mesmo morreram, não voltaram atrás. Seguiram adiante porque tinham a promessa de coisas melhores feitas pelo próprio Deus.

E.A.G.

Compilações:
A Supremacia de Cristo. Fé, esperança e ânimo na Carta aos Hebreus, José Gonçalves, edição 2017, Bangu, Rio de Janeiro / RJ (CPAD).
Bíblia com Anotações A. W. Tozer, página 1466, edição 2013, Bangu,Rio de Janeiro (CPAD).
Bíblia de Estudo Explicada S. E. McNair com texto bíblico Almeida Revista e Corrigida 1995, páginas 1374, edição 2014, Rio de Janeiro (CPAD).
Ensinador Cristão, ano 19, nº 73, páginas 25 e 26, janeiro a março de 2018, Bangu, Rio de Janeiro (CPAD). 
Lições Bíblicas / Professor. A Supremacia de Cristo; José Gonçalves; 1º trimestre de 2018; página 7; Bangu/RJ (CPAD).
Os anjos, sua natureza e ofício, Severino Pedro da Silva, edição 1987, páginas 42 e 43, Rio de Janeiro (CPAD).

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