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segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

A sexualidade de alguns personagens do Antigo Testamento

Pintura a óleo de Edwin Long
Arte retrata Ester, que veio a se casar com Assuero.
Por Eliseu Antonio Gomes

Ao ler o Antigo Testamento do início ao fim, percebemos que a narrativa bíblica em muitos trechos é ousada ao tratar de assuntos de ordem sexual. Aborda fatos como estupros e seduções, fala de concubinas e prostitutas. Não se omite sobre a presença de corpos físicos, por vezes em ações duvidosas ou realmente ilícitas. Então. é algo estranho presenciar líderes cristãos esforçados para convencer jovens que determinadas passagens bíblicas que apontam para questões sexuais não estejam focando o sexo.

Dentro deste tema e em outros, é importante fazer a leitura com base na interpretação literal, não convém procurar significados estranhos ao que o texto declara. É preciso considerar que os homens e mulheres da Bíblia não eram heróis fictícios, eles eram pessoas reais que fizeram boas e más escolhas ao longo de suas vidas. que a pureza sexual é uma grande virtude, porém, também, que as Escrituras Sagradas não escondem as falhas de personagens bíblicos.

A norma para os reis israelitas é que não deveriam acumular para si mulheres, eles não deveriam imitar o hábito da poligamia de reis pagãos (Deuteronômio 17.17). Porém, sabemos que a regra foi descumprida por praticamente todos eles, pois as narrativas nos dizem que possuíram haréns. Davi e Salomão, com suas diversas esposas e concubinas não são bons exemplos neste assunto.

 1 Samuel, capítulo 11 contém a história chocante do triângulo Davi, Bate-Seba e Urias. Adultério e o plano de morte para encobrir o pecado sexual.

1 Reis 1.1-5 tem o registro da época em que o rei Davi estava em idade avançada. Os funcionários do palácio mais próximos a ele perceberam que ao cobrí-lo na cama ele não se aquecia, então ficou resolvido que procurariam uma jovem bela para esquentá-lo, procuraram por todos os termos de Israel e encontraram a sunamita Abisague. O texto revela que o rei não teve relações com a garota, considerada por eles a mais formosa de Sunen, e isso deixa transparecer que o poder de reinar estava associado à virilidade do monarca, pois diante da situação Adonias se propôs a assumir o trono.

Em 1 Reis 12.1-16 encontramos a narrativa sobre Roboão, que acabara de assumir o trono de seu pai Salomão, que havia morrido. Os súditos estavam agitados e pediam que houvesse alívio na carga de tributos. Então, ele pediu três dias para pensar, e foi buscar aconselhamento entre os conselheiros de seu pai para resolver aquela situação, mas aparentemente não gostou do conselho que ouviu e procurou seus companheiros de juventude para saber o que pensavam a respeito. Os jovens propuseram a Roboão que mostrasse firmeza e deram a sugestão do que falar: "Meu dedo mínimo é mais grosso do que os lombos de meu pai" (versículo 10).  Há quem entenda que esteja incorporado neste texto um eufemismo, no lugar de lombo teria sido dito órgão sexual. No original hebraico, a palavra é "moten", e significa "coxa".

O que dizer da passagem do Livro de Josué, capítulo 2, quando o líder envia dois jovens para espiar a cidade de Jericó e quando os espiões chegam lá resolvem pernoitar na casa de uma prostituta chamada Raabe? Penso eu que era estratégia para passar desapercedidos, pois estavam em uma missão perigosa e não havia condição para desconcentrarem-se do objetivo a ser cumprido. A mulher acolheu os dois homens durante toda a noite, os escondeu de seus inimigos que desejavam matá-los e depois ela e sua família foram recebidas entre o povo israelita, sendo inclusive seu nome citado no Novo Testamento como heroína da fé (Josué 6.25; Tiago 2.25; Hebreus 11.31).

O que pensar da situação da viúva Rute, na narrativa do capítulo 3? O relato da Bíblia informa que ela, seguindo o conselho de Noemi, a sua ex-sogra, lavou-se, perfumou-se e saiu ao encontro de Boaz, e ao encontrá-lo escondeu sua identidade. Ela esperou que ele se alimentasse e fosse dormir para em seguida entrar debaixo de suas cobertas e permanecer deitada lá a espera do que ele pedisse que ela fizesse. Nos informa a Bíblia que Boaz acordou apenas pela manhã e se assustou com a presença dela em seu leito. Houve final feliz: casaram-se. Intérpretes afirmam que não existe conotação sexual alguma neste texto.

Como considerar a situação de Ester, ao ser enviada por seu pai adotivo, Mardoqueu, para viver entre as belas jovens selecionadas pelos oficiais de Assuero, rei da Pérsia? O monarca pagão queria se casar pela segunda vez e separou jovens bonitas em uma casa de reclusão, para que passassem durante um ano inteiro por um processo de purificação e embelezamento e ficassem de acordo com o padrão de beleza que apreciava. Foi criado um processo seletivo, ele determinou ser visitado por elas, uma de cada vez, as visitas duravam do período da tarde ao amanhecer do dia seguinte, e assim ele pudesse avaliar e fazer de uma delas a sua rainha. Ao entrar no palácio, Ester ocultou de todos a sua nacionalidade judaica e parentesco. Passados doze meses, ela visitou o rei e sua presença o agradou, conseguiu  conquistar o coração do rei e tornar-se rainha.

Poderíamos nos estender aqui, abordando as expressões de Ezequiel 23.20 e outros trechos da Bíblia, falar mais detalhadamente sobre Ló e suas duas filhas, os encontros amorosos de Sansão com prostitutas e sua relação amorosa com Dalila.

Todas as histórias precisam ser analisadas dentro de seu contexto histórico e bíblico, buscando encontrar o seu sentido mais amplo, pois a Palavra de Deus não deve ser vista sem o seu encadeamento geral. Os leitores da Bíblia Sagrada não têm o direito de apressarem-se para adjetivar a conduta dos personagens, como sendo conduta correta ou comportamento sexual inadequado. 

Cabe ao leitor da Bíblia buscar textos bíblicos normativos para interpretar todas as situações, pois são os textos normativos que esclarecem se o comportamento de cada personagem esteve de acordo ou não com a vontade de Deus para a relação sexual entre as pessoas.

O idioma hebraico usa eufemismos. A dificuldade é que às vezes coxa significa coxa e pés significam pés, mesmo. Jamais devemos especular sobre qualquer abordagem bíblica.

O sexo faz parte da vida, por isso é tratado nas páginas da Bíblia. Todos os assuntos devem ser apresentados pelo ângulo de quem escuta ou lê, não se deve ensinar ao aluno da primeira série um tema com o mesmo vocabulário que se ensina ao estudante universitário.

Enfim, acredito que na maioria das vezes, a natureza sexual dessas histórias bíblicas é irrelevante e não precisa da nossa atenção aos pormenores. Por outro lado, a Bíblia não condena a relação sexual quando ela acontece entre marido e esposa, existe proibição se a relação é entre parceiros fora do matrimônio, e todos os relatos são úteis para ensinar o que se deve e não se deve fazer (Gênesis 2, 24;Levítico 20).

Artigo relacionado: Da zona de meretrício à genealogia de Jesus

E.A.G.

Deus dá sua Lei ao povo de Israel

Por Eliseu Antonio Gomes

Os Dez Mandamentos introduzem o sistema de toda a legislação mosaica, foram escritos em duas tábuas de pedra pelo próprio Deus (Deuteronômio 4.13; 5.22; 10.2-4). Se aplicam primariamente aos hebreus, não a toda a humanidade

Os Dez Mandamentos são uma parte da Lei de Moisés e não a lei em si mesma. A lei foi dada a Israel como um conjunto de normas para o povo antes de conquistar a terra de Canaã. As leis adicionais foram ditadas por Deus e escritas por Moisés (Êxodo 17.14; 24.4; 34.27; Deuteronômio 27.3, 8; 31.9).

Os judeus sofreram 430 anos, aprisionados em regime de escravidão, no Egito, Naquele país, receberam a influência da cultura nativa, da religião e da filosofia de vida. Para romper o aculturamento negativo, a providência divina estabeleceu princípios eternos aos israelitas a fim de que eles aprofundassem o processo de libertação.

O Decálogo, único trecho bíblico escrito pelo dedo de Deus (Êxodo 31.8), é considerado por muitos como uma composição de leis duras, porém, os mandamentos que os judeus receberam tinham o objetivo de garantir a liberdade que eles haviam conquistado. Não era o bastante estar fora da sociedade egípcia, era preciso também que todos os hebreus estivessem livres do "espírito" do Egito.

A revelação da lei encontra-se no Pentateuco, também conhecido como Torah (em hebraico: instrução, ensino, lei), é tratado reunido em cinco livros da Bíblia Sagrada, cuja autoria é de Moisés em quase sua totalidade (Números 12.6-8; Deuteronômio 34.10-12; Lucas 24.44). A obra, cujo autor é um dos mais importante profeta do Antigo Testamento, começa com a narração da origem dos céus e da terra e termina com o registro da morte de Moisés - cujo relato é considerado conteúdo escrito por Josué (Gênesis 1.1 - Deuteronômio 34.7-8).

A revelação da Lei começa no Livro de Êxodo, capítulo 20 e versículo 1. O livro de Números relata as jornadas no deserto; Deuteronômio recapitula a lei e traz ao povo a reflexão sobre os acontecimentos no deserto desde a saída do Egito, exortando o povo israelita à fidelidade a Deus (Deuteronômio 1.3; 4.1).  E termina no Livro Levítico, capítulo 27 e versículo 34.

Moisés encontrou-se com Deus no Monte Sinai e dEle recebeu, solenemente, Os Dez Mandamentos, quando houve nos céus trovões, relampagos, sonido de buzina e  fumegação do monte. As manifestações sobrenaturais causaram medo no povo, fortaleceram a autoridade de Moisés, deixaram de modo claro e indiscutível a autenticidade e autoridade da lei.  (Êxodo 20.18-22; 19.16-19).

Era comum celebrar um concerto com festa (Gênesis 26.28-30).

Três meses depois da saída de Israel do Egito, houve o ritual do concerto e da promulgação da lei, quando aconteceram holocaustos e a leitura do livro da lei numa cerimônia com profundas implicações messiânicas no pé do monte. E naquele lugar os israelitas fizeram voto de fidelidade e obediência à Lei de Deus,  permaneceram ali durante um ano (Êxodo 19.1-3, 8; Números 10.11, 13).

Deus revelou sua Lei aos homens através de Moisés, o seu servo, que cumpriu o papel de legislador de Israel e o papel de mediador entre a vontade de Deus e o povo de Israel. Porém a revelação plena consiste em Cristo, o Filho de Deus, que trouxe para a Humanidade uma nova e suficiente aliança ao se fazer homem. Por este motivo, no conteúdo da Lei, o Senhor constituiu a prática de sacrifícios santos, os holocaustos de animais, derramamento e aspersão de sangue.  Os judeus deviam oferecer sacrifícios com derramamento de sangue, ato simbólico que servia de prenuncio à redenção realizada na cruz. O escritor de Hebreus lembra que o concerto no Sinai foi celebrado com sangue e faz uma analogia com a Nova Aliança, porque o Senhor Jesus a selou com seu próprio sangue (Hebreus 9. 18-22).

A promulgação da Lei é a cerimônia oficial do concerto que Deus fez com a nação israelita, a ratificação do concerto que havia feito com Abraão (Êxodo 34.27; Gênesis 15.18). Sua origem é o próprio Deus, ela é santa, por isso era preciso que os judeus a observassem de todo o coração (Neemias 8.1; Romanos 7.12).

Êxodo 20:

1º . "Não terás outros deuses diante de mim" - versículo 3. Numa época em que a idolatria norteava as nações, o código de leis mosaico apresentou o regime monoteísta, que influencia o mundo inteiro através do cristianismo. O mandamento resguarda a unidade de Deus (versículo 3).
2º. "Não farás para ti imagem de escultura..." - versículos 4-6. Orientação ao povo de que o único Deus não deve ser adorado com uso de representações visuais, a adoração deve ser restringida aos termos imateriais e espirituais. A orientação resguarda a espiritualidade de Deus. Por isso, a adoração cristã genuína repele toda representação visual (Colossenses 3.16).
3º.  "Não tomarás o nome do teu Deus em vão..." - versículo 7. É um tratado daquilo que falamos com respeito a Deus e ao próximo, e de como usamos o nome de Deus. Visa resguardar a divindade do Senhor no relacionamento com e entre os homens.
4º. "Lembra-te do dia do sábado, para o santificar" - versículo 8-11. Orientação de caráter social e espiritual. Aponta para a necessidade do ser humano trabalhar e descansar. A lei estabeleceu para Israel o sétimo dia da semana como dia de descanso, era o sinal do concerto entre Deus e os hebreus (Êxodo 31.13, 17). Na graça, este dia foi substituído pelo primeiro dia, pois Jesus Cristo ressuscitou no domingo , Jesus e seus apóstolos não incluíram como parte obrigatória da fé cristã, assim sendo deixou de ser mandamento para ser praticado voluntariamente (Atos 20. 7; Romanos 14.2-6; Colossenses 2.16, 17).
5º. "Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá" - versículo 12. A observação deste preceito contribui para o bem-estar da sociedade e da igreja. Os pais, além de terem gerado os filhos, são seus provedores aqui na terra, cuidam da alimentação, educação, saúde, roupas. Desonrar e desobedecer aos pais é afrontar a Deus através da ingratidão.
6º. "Não matarás" - versículo 13. A legislação mosaica protege a vida. O assassinato é o pior dos crimes que uma pessoa pode cometer, pois é um golpe contra Deus, pois o próximo é imagem e semelhança do Criador (Gênesis 9.6).
7º. "Não furtarás" - versículo 14. A proteção da propriedade remete à necessidade do indivíduo adulto trabalhar e através do seu suor adquirir bens necessários ou supérfluos.
8º. "Não adulterarás" - versículo 15. Este mandamento é um apelo ao compromisso de fidelidade entre os casais, à pureza sexual e à proteção da estrutura familiar.
9º. "Não dirás falso testemunho contra o teu próximo" - versículo 16. O nono mandamento não se restringe ao perjúrio nos tribunais, é uma proteção a honra. Trata-se também da proibição de propagação de boatos falsos e mexericos.
10º. "Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo" - versículo 17. O último entre os dez mandamentos é contra o pecado do pensamento, sintetiza com clareza os mandamentos anteriores e esclarece que não se deve nem práticá-lo no campo da imaginação.

A estrutura dos Dez Mandamentos referem-se ao amor a Deus e ao próximo, os quatro primeiros mandamentos dizem respeito ao nosso relacionamento com Deus; do quinto em diante Deus trata do relacionamento do homem com seu próximo, são referências à sociedade e envolvem pensamento, palavras e obras.

A Lei mosaica não possui domínio sobre os cristãos, mas isso não significa que tenha sido anulada. Ela foi cumprida por Cristo, e por isso nós vivemos debaixo da graça (Gálatas 3.23-25). A maior e mais completa lei é a Lei de Cristo, apresentada no Evangelho. Jesus cumpriu toda a Lei de Moisés, de modo que toda moral contida no sistema mosaico foi incorporada e restaurada sob a graça derramada por Ele através do sacrifício no Calvário. O mandamento de Cristo é a lei do amor, o mais importante mandamento (Romanos 13.10).

As  normas apresentadas no Decálogo permanecem ainda hoje na legislação de praticamente todos os países do planeta.

E.A.G.

Compilações:
Ensinador Cristão, ano 16, nº 61, página 31, jan/fev/mar 2015, Rio de Janeiro (CPAD)
Lições Bíblicas - Professor, Os Dez Mandamentos - Valores divinos para uma sociedade em constante mudança, Esequias Soares, 1° trimestre de 2015, páginas 2 a 10, Rio de Janeiro (CPAD).
Os Dez Mandamentos - Valores Divinos para uma Sociedade em Constante Mudança, Esequias Soares, 1ª edição outubro de 2014,  Rio de Janeiro (CPAD).